1 Revisão de Literatura Centro Universitário UNA - Itumbiara 2025 Importância do Hemograma Completo no Diagnóstico Diferencial das Anemias Importance of the Complete Blood Count in the Differential Diagnosis of Anemias Rayssa Gabrielle da Silva Santos1. Rafaella Vieira Oliveira1. Maria Eduarda Soares Marques1. Mariana Venâncio Rosa Silva1. Tharlley Duarte2 1Discentes do curso de Biomedicina do Centro Universitário UNA Itumbiara; 2Farmacêutico Bioquímico, Mestre em Ciências Aplicadas à Saúde, Doutorando em Genética e Biologia Molecular, Professor Adjunto do Centro Universitário UNA – Jataí E-mail de correspondência: tharlley.duarte@animaeducacao.com.br RESUMO A anemia é um relevante problema de saúde pública que acomete indivíduos de diferentes faixas etárias e contextos socioeconômicos, com maior prevalência em países em desenvolvimento. No Brasil, grupos como crianças, idosos, mulheres e populações vulneráveis apresentam maior incidência da condição. A detecção precoce é essencial, uma vez que a anemia pode estar associada a causas diversas, como deficiência nutricional, doenças crônicas, distúrbios hereditários e processos hemolíticos. Nesse cenário, o hemograma completo destaca-se como exame de primeira linha no diagnóstico diferencial, por ser acessível, de baixo custo e amplamente disponível nos serviços de saúde. Parâmetros como volume corpuscular médio (VCM), largura de distribuição das hemácias (RDW), hemoglobina corpuscular média (HCM), concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM), morfologia eritrocitária e contagem de reticulócitos são fundamentais para distinguir entre os tipos de anemia, como microcítica, normocítica e macrocítica, além de auxiliar na identificação de quadros regenerativos ou não. Estudos evidenciam que a utilização exclusiva dos níveis de hemoglobina pode atrasar o reconhecimento da etiologia, reforçando a importância da análise integrada dos índices hematimétricos e morfológicos. Assim, este trabalho tem como objetivo avaliar a relevância do hemograma completo na diferenciação das anemias, enfatizando seus parâmetros mais indicativos e seu papel na otimização do diagnóstico e do manejo clínico. Palavras-chave: Anemia; Diagnóstico; Hemograma. ABSTRACT Anemia is a significant public health issue that affects individuals across different age groups and socioeconomic contexts, with higher prevalence in developing countries. In Brazil, children, the elderly, women, and vulnerable populations are the most affected. Early detection is essential, as anemia may be associated with several underlying conditions, such as nutritional deficiencies, chronic diseases, hereditary disorders, and hemolytic processes. 2 In this context, the complete blood count stands out as a first-line diagnostic tool due to its accessibility, low cost, and wide availability in health services. Parameters such as mean corpuscular volume (MCV), red cell distribution width (RDW), mean corpuscular hemoglobin (MCH), mean corpuscular hemoglobin concentration (MCHC), erythrocyte morphology, and reticulocyte count are fundamental to distinguish types of anemia, such as microcytic, normocytic, and macrocytic, as well as to determine whether the condition is regenerative or not. Studies indicate that relying solely on hemoglobin levels may delay etiological identification, reinforcing the importance of integrated interpretation of hematimetric and morphological parameters. Therefore, this study aims to assess the relevance of the complete blood count in differentiating types of anemia, highlighting the most informative parameters and its role in optimizing diagnostic accuracy and clinical management. Keywords: Anemia; Diagnosis; Blood count 1 INTRODUÇÃO A anemia é considerada um importante problema de saúde pública em todo o mundo e afeta pessoas de diferentes idades, gêneros e contextos socioeconômicos, especialmente em países de baixa e média renda. No Brasil, estima-se que cerca de 9,9% dos adultos e idosos apresentem anemia, com maiores taxas entre mulheres, indivíduos com menor nível de escolaridade, pessoas de pele mais escura e habitantes das regiões Norte e Nordeste. Os tipos mais frequentes são as anemias normocíticas e normocrômicas (MELLO et al., 2019). A anemia falciforme (AF) pode ser definida como uma anomalia hereditária que provoca disfunção na hemoglobina S (HbS) dos eritrócitos. Seus sinais e sintomas podem surgir ainda na infância, manifestando-se por infecções frequentes, crises de dor intensa nos ossos, icterícia e aumento abdominal devido à esplenomegalia, persistindo até a vida adulta (EMILIANO et al., 2021). Em crianças pequenas, a prevalência de anemia pode variar de 30% a 40%, refletindo fatores nutricionais, socioeconômicos e de saúde pública (VANNUCCHI; JORDÃO, 2016). A detecção precoce é fundamental, pois a anemia não se caracteriza apenas como uma condição isolada, mas como um indicativo de causas subjacentes, como deficiência de ferro, doenças crônicas, talassemias, condições hemolíticas, deficiência de vitaminas ou sangramentos (HOFFBRAND; MOSS, 2017). Nesse contexto, o hemograma completo (HC) 3 destaca-se como um exame de rotina, acessível e amplamente disponível, capaz de avaliar a quantidade e a qualidade das células sanguíneas — hemácias, leucócitos e plaquetas — fornecendo informações importantes para identificar a etiologia da anemia (WROBEL et al., 2023). Cavalcante et al. (2015) relatam que, na prática cotidiana, muitos diagnósticos de anemia ainda se baseiam principalmente nos níveis de hemoglobina, sem a devida atenção a outros parâmetros hematológicos ou à morfologia celular, o que pode retardar a identificação da causa. Parâmetros como volume corpuscular médio (VCM), hemoglobina corpuscular média (HCM), concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM), largura de distribuição das hemácias (RDW), contagem de reticulócitos e análise morfológica das hemácias são fundamentais para diferenciar os tipos de anemia. Estudos envolvendo idosos brasileiros apontam maior prevalência de anemia associada à microcitose, hipocromia e anisocitose, destacando a importância da interpretação cuidadosa do hemograma (SANTOS et al., 2017). Outra forma de anemia nesse grupo etário é a normocítica e normocrômica com RDW normal, frequentemente associada a sangramento agudo. Segundo Machado et al. (2019), esse tipo pode estar relacionado a alterações tireoidianas, doenças reumatológicas, neoplásicas ou outras condições crônicas. Em ambientes com recursos limitados, o hemograma permanece como ferramenta essencial de triagem, auxiliando na indicação de exames mais específicos, como dosagem de ferritina, eletroforese de hemoglobina ou marcadores de hemólise — que podem ter custo elevado ou disponibilidade reduzida. Dessa forma, a análise dos índices hematimétricos e morfológicos é imprescindível para diferenciar os tipos de anemia, como microcítica, normocítica ou macrocítica, e avaliar se a condição é regenerativa ou não (KAZEMI; KAZEMI, 2023). Diante do exposto, esta pesquisa justifica-se pela relevância do hemograma completo como exame de primeira linha no diagnóstico diferencial das anemias. Evidencia-se não apenas seu valor clínico e epidemiológico, mas também sua contribuição para a adequada utilização dos recursos em saúde. O objetivo geral deste trabalho é avaliar a importância do hemograma 4 completo na diferenciação entre os diversos tipos de anemia, com foco nos parâmetros hematimétricos e morfológicos mais relevantes para a identificação das principais causas. 2 METODOLOGIA Este estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura de caráter narrativo, com enfoque descritivo e exploratório, voltada para a análise do papel do hemograma completo no diagnóstico diferencial das anemias. A busca pelos materiais científicos foi realizada nas bases de dados PubMed, SciELO, Google Scholar e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizados os seguintes descritores em português e seus equivalentes em inglês, combinados com operadores booleanos (AND/OR): “anemia”, “hemograma”, “diagnóstico”, “parâmetros hematimétricos”, “morfologia eritrocitária” e “complete blood count”. Também foram consultados documentos técnicos do Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde (OMS) e artigos indexados em periódicos científicos. O recorte temporal compreendeu publicações dos últimos dez anos (entre os anos de 2015 e 2024), considerando como ano-base o artigo mais antigo encontrado e o mais atual relacionado ao tema. Foram incluídos artigos originais, revisões, diretrizes clínicas e estudos epidemiológicos que abordassem a interpretação do hemograma na diferenciação dos tipos de anemia. Foram excluídos materiais que não estavam disponíveis na íntegra, duplicados, textos com idioma diferente do português, inglês ou espanhol, artigos opinativos, resumos simples de eventos e estudos que não abordavam diretamente os parâmetros hematológicos relacionados ao diagnóstico das anemias. Após a seleção, os estudos foram organizados e analisados de forma crítica, considerando a relevância, coerência científica e aplicabilidade clínica das informações. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1 Tipos de Anemia, Características e Abordagens Terapêuticas 5 A anemia é complexa e pode ser categorizada com base no tamanho e na cor das hemácias, bem como na origem da doença. Os principais tipos são anemia por deficiência de ferro, anemia megaloblástica, anemia hemolítica e anemia de doenças crônicas. Cada tipo tem características laboratoriais e clínicas únicas (Tabela 1), para as quais tratamentos especiais são recomendados. Tabela 1: Principais tipos de anemia, causas, achados laboratoriais e tratamentos Tipos de Anemia Causas Principais Achados Laboratoriais Tratamento e Medicação Ferropriva Deficiência de ferro por dieta inadequada, perdas sanguíneas ou aumento da demanda Hemoglobina ↓, VCM ↓, HCM ↓, ferritina ↓ Suplementação com sulfato ferroso oral ou parenteral Megaloblástica Deficiência de vitamina B12 e/ou ácido fólico VCM ↑, macrocitose, neutrófilos hipersegmentados Reposição de B12 e ácido fólico oral ou intramuscular Hemolítica Destruição acelerada das hemácias (hereditária, autoimune, medicamentosa) Reticulócitos ↑, bilirrubina indireta ↑, LDH ↑ Tratar causa base, reposição de ácido fólico, transfusões. Doenças Crônicas Inflamações persistentes, câncer, insuficiência renal, doenças autoimunes Ferro sérico ↓, ferritina ↑, VCM normal Controle da doença de base, eritropoetina recombinante Fonte: Adaptado de Oliveira et al. (2020), Silva et al. (2018), Brasil (2021). O tipo mais comum é a deficiência de ferro, que ocorre principalmente devido à deficiência de ferro necessária para a síntese de hemoglobina. Os achados laboratoriais consistem em microcitose, hipocromia e baixos níveis de ferro e ferritina no soro (OLIVEIRA; FREITAS; SOARES, 2020). O ferro oral ou parenteral é o tratamento de escolha de acordo com a gravidade e a tolerância do paciente. Desde 2005, o Ministério da Saúde estabeleceu o Programa Nacional de Suplementação de Ferro, que promove a administração de sulfato ferroso em gestantes e mulheres no pós-parto e entre crianças de 6 a 24 meses, a fim de diminuir a prevalência de anemia nutricional (BRASIL, 2021). 6 A anemia megaloblástica ocorre quando há insuficiência de vitamina B12 e/ou ácido fólico, o que provoca a produção de hemácias grandes e imaturas (macrócitos). Os sintomas são fraqueza, palidez e, quando o déficit é de B12, distúrbios neurológicos (FERRARI et al., 2019). O tratamento consiste na reposição de vitaminas, geralmente na forma oral ou intramuscular. A anemia hemolítica ocorre quando as hemácias se degradam muito rapidamente no corpo, um processo que pode ser herdado ou adquirido (como imunológico ou induzido por medicamentos). Clinicamente, apresenta-se com icterícia, bilirrubina indireta elevada e reticulocitose (COSTA; ALMEIDA, 2020). O manejo consiste em tratar a causa, substituição de ácido fólico e transfusão de sangue, se necessário. A anemia de doenças crônicas ocorre frequentemente em pacientes com inflamação prolongada, insuficiência renal, câncer ou distúrbios autoimunes. Apresenta-se com normocitose e normocromia, o ferro sérico é reduzido, mas a ferritina aumentada pode representar o uso de ferro encerrado (SILVA et al., 2018). O manejo é direcionado ao controle da doença subjacente e a eritropoietina humana recombinante pode ser uma terapia eficaz em alguns pacientes. Além de tratamentos individuais, são necessárias políticas públicas para combater a anemia em larga escala. O Programa Nacional de Suplementação de Ferro e o Programa de Fortificação de Farinha de Trigo e Milho com ferro e ácido fólico (CONSENSO, 2019) são políticas públicas essenciais que contribuem para a prevenção e o controle das anemias por deficiência, especialmente em grupos vulneráveis. 3.2 Impactos Clínicos e Socioeconômicos da Anemia A anemia, especialmente a ferropriva, apresenta não apenas consequências clínicas, mas também tem consequências econômicas e sociais de longo alcance. A situação é que se estima que no mundo aproximadamente 17,6% - quase 8,8% de todo o sofrimento devido a anos de incapacidade vividos em sofrimento - em matérias-primas apenas atendidas pela incapacidade mental, principalmente por suprimentos alimentares fortificados com ferro (OMS, 2023). Nos países em desenvolvimento como o Brasil, a anemia pode estar 7 associada a fatores como a insegurança alimentar em relação a si mesmo e/ou a outros membros da família; renda baixa do trabalho ou profissão em média; e, por fim, incluindo a variação na obtenção dos serviços de saúde (MORAIS et al., LIMA 2000). A deficiência de ferro na gravidez está associada a um maior risco de parto prematuro, baixo peso ao nascer (o que frequentemente envolve morte prematura se não tratada a tempo) e maiores taxas de mortalidade infantil de modo geral, assim como imediatamente após o nascimento (CARVALHO et al, 2019). Nas crianças, os efeitos adversos incluem atrasos no desenvolvimento cognitivo resultantes da desnutrição durante os primeiros estágios da vida, desempenho acadêmico reduzido, incluindo atitude negativa em testes padronizados, e mais uma desculpa para infecções se o sistema imunológico não funcionar adequadamente (SOUZA et al., 2021). Em adultos economicamente produtivos, a anemia reduz a capacidade física e o desempenho no trabalho, resultando em perdas econômicas substanciais. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, 2022), países com alta prevalência de anemia perdem de 2 a 4% do PIB porque as pessoas são menos produtivas e também há custos indiretos para tratamento. Os efeitos nos serviços de saúde também são significativos, com um aumento no número de internações hospitalares e terapias complementares sendo utilizadas. De acordo com o DATASUS (2021), o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou mais de 50.000 internações por anemia no Brasil entre 2018 e 2020 apenas, ao custo de mais de R$ 30 milhões. Tais números ressaltam a importância de políticas públicas que integrem prevenção, rastreamento e tratamento precoce nos programas municipais. Outro ponto a ter em mente é que, quando se trata de educação nutricional, programas intersetoriais que incluem escolas, centros de saúde e assistência social têm se mostrado eficazes para reduzir a anemia infantil, enfatizando alimentos ricos em ferro e vitaminas, como fígado, ovos, nozes e sementes, peixes empanados, iogurtes, tofu, açúcar e cereais fortificados com ferro (BRASIL, 2021). Portanto, o combate à anemia requer uma estratégia de ataque total, utilizando táticas como suplementação, fortificação de alimentos, diagnóstico 8 precoce e melhoria da dieta. O sucesso desses esforços depende amplamente do governo, dos profissionais de saúde e do próprio público coordenarem seus esforços em conjunto. 3.3 Prevalência Global e Nacional da Anemia A anemia continua a ser uma das deficiências nutricionais mais prevalentes no mundo. De acordo com dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023), aproximadamente 39,8% das crianças menores de 5 anos apresentam anemia, enquanto 30,7% das mulheres em idade reprodutiva são afetadas. Entre gestantes, a prevalência chega a 35,5%, o que evidencia a magnitude do problema e o impacto potencial em saúde materno-infantil. De acordo com Mônaco Ferreira et al (2018) que se refere às deficiências nutricionais, vários estudos apresentaram resultados referentes à importância e atenção ao metabolismo ósseo após o bypass gástrico, ou cirurgia que reduz o tamanho do estomago, com monitorização dos parâmetros bioquímicos e a suplementação adequada de cálcio, vitamina D e proteína. No contexto brasileiro, o Ministério da Saúde (PNDS, 2019) aponta que cerca de 21% das crianças menores de 5 anos apresentam anemia, enquanto entre mulheres adultas a prevalência chega a 29% (Gráfico1), com destaque para regiões Norte e Nordeste, que registram índices altos. Esses dados oficiais reforçam a necessidade de políticas públicas de prevenção, detecção precoce e manejo clínico. Grágico 1: Prevalência da anemia em diferentes grupos populacionais (%) 9 Fonte: OMS (2023) E PNDS (2019) 3.4 Papel do Hemograma Completo no Diagnóstico Diferencial O hemograma completo é amplamente reconhecido como exame de primeira linha. Cavalcante et al. (2015) mostram que diagnósticos baseados exclusivamente na hemoglobina podem atrasar a identificação das causas da anemia. A análise de parâmetros como Volume Corpuscular Médio (VCM), Hemoglobina Corpuscular Média (HCM), Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM), Variação da Concentração de Hemoglobina nos Eritrócitos (HDW – Hemoglobin Distribution Width), contagem de reticulócitos e morfologia eritrocitária permite diferenciar anemias microcíticas, normocíticas e macrocíticas, além de determinar se a anemia é regenerativa ou não (PINHEIRO, 2025). Kazemi & Kazemi (2023) reforçam que, mesmo em ambientes com recursos limitados, o hemograma completo oferece informações críticas que direcionam a necessidade de exames complementares como ferritina sérica, transferrina, eletroforese de hemoglobina e marcadores de hemólise. O hemograma é uma ferramenta essencial na prática clínica e epidemiológica, pois permite correlacionar achados laboratoriais com sintomas e histórico do paciente. Parâmetros como o VCM e o HCM são fundamentais para distinguir anemias microcíticas (ex.: ferropriva), normocíticas (ex.: doenças crônicas) e macrocíticas (ex.: megaloblástica), o que facilita o diagnóstico diferencial e evita tratamentos inadequados (SOUZA et al., 2022). 10 Além disso, a contagem de reticulócitos auxilia na avaliação da resposta medular, distinguindo anemias regenerativas de não regenerativas, informação crucial para definir condutas terapêuticas. Outro aspecto importante é a associação entre hemograma e outros exames bioquímicos. A dosagem de ferritina e ferro sérico, quando interpretada junto aos parâmetros hematimétricos, (Gráfico 2) oferece uma visão mais completa sobre o metabolismo do ferro. Em pacientes com doenças inflamatórias ou insuficiência renal, por exemplo, o hemograma isolado pode sugerir anemia, mas apenas a correlação com marcadores bioquímicos revela a real etiologia (LIMA; PEREIRA; TORRES, 2021). Gráfico 2: Parâmetros hemamétricos em diferentes tipos de anemia Fonte: LIMA; PEREIRA; TORRES, 2021. Souza et al (2022) afirmam que o hemograma não apenas identifica a anemia, mas também direciona o médico à causa de base, otimizando recursos laboratoriais e reduzindo o tempo para o diagnóstico. A análise quantitativa dos parâmetros hematimétricos fornece um panorama essencial para a diferenciação das anemias e o acompanhamento da resposta terapêutica. A Tabela 2 apresenta os valores médios de referência dos principais índices hematológicos nas anemias mais frequentes. A interpretação integrada desses parâmetros permite ao profissional de saúde 11 identificar o tipo e a possível causa da anemia, facilitando decisões clínicas mais precisas e direcionadas (SOUZA et al, 2022). Tabela 2: Parâmetros hematimétricos em diferentes tipos de anemia Tipo de Anemia VCM (fL) HCM (pg) CHCM (g/dL) RDW (%) Observações clínicas principais Ferropriva ↓ < 80 ↓ < 27 ↓ < 32 ↑ > 15 Microcitose, hipocromia, deficiência de ferro sérico Megaloblástica ↑ > 100 ↑ > 34 N/↑ ↑ Macrócitos, deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico Hemolítica N/↑ N N ↑ Reticulocitose, bilirrubina indireta elevada Doenças Crônicas N N N/↓ N Ferritina aumentada, ferro sérico reduzido Anemia Falciforme N/↓ N N ↑ Presença de hemácias falciformes, crises dolorosas Fonte: LIMA; PEREIRA; TORRES, 2021. A partir da análise comparativa dos parâmetros apresentados, observa- se que os índices hematimétricos variam conforme o tipo e a etiologia da anemia (LIMA; PEREIRA; TORRES, 2021). Enquanto na anemia ferropriva há microcitose e hipocromia evidentes, na anemia megaloblástica o aumento do VCM é o principal marcador, refletindo o comprometimento da síntese de DNA nas hemácias. Já nas anemias de doenças crônicas, as alterações tendem a ser mais sutis, o que reforça a importância da correlação com marcadores inflamatórios, como a proteína C reativa e a ferritina sérica. O conhecimento detalhado desses padrões laboratoriais é indispensável para o diagnóstico diferencial, reduzindo erros clínicos e otimizando a conduta terapêutica individualizada (LIMA; PEREIRA; TORRES, 2021). 3.5 Populações Específicas: Crianças, Idosos e Anemia Hereditária Vannucchi & Jordão (2016) destavam que em crianças, os fatores nutricionais e socioeconômicos impactam diretamente a prevalência de 12 anemia. A deficiência de ferro é o fator mais frequente, mas deficiências de vitamina B12, folato e condições infecciosas também contribuem. Em idosos, Santos et al. (2017) e Machado et al. (2019) destacam a diversidade de apresentações: microcitose, hipocromia, anemia normocítica com RDW normal e associação com doenças crônicas, neoplasias ou alterações tireoidianas. Esses achados reforçam a necessidade de interpretação cuidadosa do hemograma para evitar subdiagnóstico ou tratamento inadequado. No caso da anemia falciforme, Emiliano et al. (2021) relatam que os sintomas iniciam na infância, com crises dolorosas, icterícia e esplenomegalia, demandando acompanhamento contínuo. A detecção precoce por meio de hemograma completo e exames complementares, como eletroforese de hemoglobina, é essencial para prevenir complicações graves. 3.6 Integração dos Achados e Implicações Clínicas A revisão integrada evidencia que o hemograma completo não deve ser interpretado isoladamente. A combinação de parâmetros hematimétricos e morfológicos fornece informações robustas para a diferenciação precisa da anemia, permitindo planejamento terapêutico adequado, triagem em larga escala e monitoramento de grupos populacionais de risco (OMS, 2023). Além disso, a integração de dados epidemiológicos oficiais da OMS (OMS, 2023) e do Ministério da Saúde fornece uma base sólida para contextualizar a importância do hemograma no manejo da anemia, reforçando políticas de saúde pública, prevenção e otimização do uso de recursos clínicos. 4 CONCLUSÃO O hemograma completo se confirma como ferramenta essencial no diagnóstico diferencial das anemias, permitindo a identificação precisa dos diferentes tipos, como microcítica, normocítica e macrocítica, bem como a avaliação da regeneratividade das células sanguíneas. Sua interpretação integrada, considerando parâmetros hematimétricos e morfológicos, contribui para decisões clínicas mais assertivas e manejo adequado das condições subjacentes. 13 Além de seu valor clínico, o hemograma desempenha papel importante na vigilância epidemiológica, auxiliando na identificação de grupos populacionais de risco e no planejamento de estratégias de prevenção e intervenção em saúde pública. A análise criteriosa dos resultados evita atrasos diagnósticos e direciona a necessidade de exames complementares de forma eficiente. Dessa forma, este estudo reforça a relevância do hemograma completo como exame de primeira linha, destacando sua aplicabilidade em diferentes contextos populacionais e clínicos. A utilização consciente e interpretativa do hemograma contribui para a melhora da qualidade do cuidado, otimização de recursos e promoção de saúde em todas as faixas etárias. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. 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